Revista  do CLUBE DOS OFICIAIS DA  MARINHA  MERCANTE

Nº 61/62  

Setembro/Outubro 2004

 

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Capa: the end of the day (Armando Almeida)

EDITORIAL

 A vida do Mar foi sempre considerada como uma das mais árduas profissões do Homem.

As dificuldades e os perigos surgiram desde o momento, em que o ser humano se abalançou a transpor o elemento líquido e mantiveram-se através dos tempos.

Imperfeitos eram os recursos, de começo, e escassos os conhecimentos de que se dispunha. Não obstante, o espírito audaz e aventureiro do homem dominou os elementos, desfez as lendas e abriu através dos oceanos as rotas comerciais.

Aperfeiçoaram-se os conhecimentos da construção naval, evolucionaram os processos da arte de navegar, criaram-se os meios auxiliares de segurança da navegação e transformaram-se assim as tentativas aventurosas em viagens de precisão quase matemática.

Longe vão, portanto, os tempos em que as tripulações dos navios eram procuradas nas rusgas aos vadios e em que a disciplina era mantida à ponta do chicote.

Os progressos do material arrastaram naturalmente a melhoria das condições de trabalho a bordo.

Diminuíram os riscos, reduziu-se a duração das viagens e atraiu-se para a profissão do Mar nova gente.

A vida, porém, continuou árdua, violenta e desgastante.

A incapacidade para o trabalho atinge-se, nos marítimos, mais cedo do que nos trabalhadores de terra.

Só uma constituição física e moralmente forte, pode enfrentar os perigos e pesadas responsabilidades, que continuam a incidir sobre o profissional do Mar.

Afastado do seu meio natural – o Homem é um animal essencialmente terrestre – privado do contacto reconfortante do lar e do convívio com as pessoas da sua estima, o trabalhador do mar vai adaptar-se a um ambiente em que os elementos nem sempre são favoráveis, sustentando amiúde lutas com a própria natureza.

As noites perdidas durante o mau tempo, a irregularidade das horas de repouso mesmo em tempo favorável, a pouca comodidade das instalações de bordo, as deficiências de nutrição por falta de alimentos frescos, a respiração de gases deletérios provenientes da combustão dos motores, a humidade quase permanente e as mudanças bruscas de clima afectam o organismo, diminuindo as suas condições de resistência ou produzindo doenças, que por vezes trazem a incapacidade para os serviços do Mar.

A falta do afecto familiar de que todo o Homem normal tem necessidade, a ausência do convívio espiritual com pessoas íntimas do seu nível, a vida de camaradagem artificial num meio essencialmente masculino, em que os companheiros de trabalho frequentemente mudam, e a própria monotonia do Mar, deprimem moralmente, embotando as emoções e modificando até o carácter do indivíduo.

Não é de estranhar que, depois de um longo período de mar e de forçado isolamento, o Marinheiro, ao chegar a algum porto, procure em terra distracções que amenizem um pouco os enfados e sofrimentos que a vida do Mar impõe.

As circunstâncias pouco favoráveis em que, quer sob o ponto de vista da higiene, quer sob o ponto de vista social, as classes marítimas exerciam a sua profissão e os perigos a ela inerentes foram naturalmente considerados pelas organizações respectivas e foram evoluindo de modo a procurarem proporcionar uma melhor qualidade de vida – quer no âmbito pessoal, social e profissional – surgindo novos navios com condições de habitabilidade e técnicas que proporcionam uma maior ergonomia, procurando minimizar os efeitos negativos que a vida do Mar propícia aos Marinheiros.

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Colaboraram neste número: Joaquim Saltão