Bordo Livre - Nº 41/42 - Maio/Junho 2002

DIÁRIO DE VIAGEM

Apresentamos aqui a 1º parte do diário da primeira viagem do nosso camarada Spínola Pitta escrita a bordo do N/M Lobito em 1959

QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ NO ÍNDICO

– A NORTE DOS 15 GRAUS SUL –

 I Parte

 

Ilha de Moçambique

Rompia o dia 24 de Dezembro de 1958, quando passávamos o farol da ilha de Goa, o ponto de aterragem

ao porto de Moçam­bique, situado na ilha do mesmo nome, que se situa na embocadura da baía do Mossuril. Quando fundeámos, a aurora iluminava o casa­rio multicolor, e a torre esguia da Igreja, um triângulo com o vértice muito agudo, parecia tocar o céu vermelho e ouro.

Chegávamos à Ilha de Moçambique – a pequena ilha onde as naus do Gama fundearam a caminho da Índia, que Camões cantou e por onde São Francisco de Xavier passou.

Por nosso bombordo lá estava o guardião, a tocar a alvorada e a içar a bandeira, a fortaleza de São Sebastião, cujo local foi escolhido, no século XVI, por D. João de Castro.

Ao desembarcar deparamo-nos com o Palácio de São Paulo, construído em 1674, sem dúvida a melhor casa de toda a ilha, construção sólida, estilo antigo, que nos lem­bra ter sido Moçambique a capital da provín­cia até 1898 – data em que o governo de Mouzinho de Albuquerque a transferiu para Lourenço Marques – e que hoje (1959) é um museu, onde o indo-português se mistura com o barroco.

Ilha de Moçambique

Esta pequena ilha, que é uma cidade – e que foi um entreposto comercial árabe no século X, até à nossa chegada em 1498 – cheia de casas com telhados mou­riscos, abriga tanta gente em tão pequeno espaço que, se não fosse a realidade dos números, seria difícil de acreditar – 7 000 habitantes.

As ruas e travessas tão estreitas, como a travessa da Saudade e tantas outras, têm parecenças com os bairros árabes, onde mal passam duas pessoas a par.

Ilha de Moçambique

Ilha de Moçambique

Em contraste encontramos, além do Palácio, outras construções coloniais: — as igrejas de Nossa Senhora da Saúde e da Misericórdia, a Mesquita e o templo Hindu (Baneano), o Hospital, a Câmara, a Capitania – onde 6 anos mais tarde iria ocasionalmente assistir ao kafkiano julgamento do “Save” – a Alfândega e o Bazar, em que as vias de acesso são normais e nas quais o único meio de transporte é o riquexó.

Nestas ruas e travessas intercruzam-se várias civilizações, predominando o africano, onde sobressaem as mulheres nas suas capulanas e turbantes vistosos e o rosto pintado de branco e, muitos homens de cabaia e cofió – maioritariamente seguidores de Alá –. Cruzamo-nos também com alguns árabes, muitos indianos e europeus.

Dos europeus residentes muitos são ex-deportados da Metrópole, na maioria por motivos políticos e, que após o cumprimento da pena, optaram por permanecerem na Ilha.

Como curiosidade, lembro-me que quando me sentei na esplanada de um restaurante, reparei na placa toponímica da rua: — Rua Marquês de Pombal. Como é normal, por baixo do nome costuma-se escrever algo que mais o distinguiu, e então estava escrito: — “expulsou os jesuítas de Portugal”!...

Henrique Galvão caracterizava deste modo a Ilha de Moçambique: —“Palácios e fortalezas, igrejas e mesquitas, praças e ruas estreitas inundadas de macuas, brancos árabes e indianos, fazem dela uma ilha do outro mundo e de outras épocas”.

Contudo o que mais me impressionou foi o de encontrar, fundeado no porto, um pangaio vindo da Índia, cuja popa em talha, conservam o cunho das nossas antigas caravelas.

Ilha de Moçambique

Ilha de Moçambique

Aproveitam as monções para cruzarem o Índico, transportando especiarias e tecidos e levando a castanha de caju para ser descascada pelas mulheres indi­anas, as quais – que trabalham neste ofício – têm as cabeças dos dedos todas “comi­das” pelo ácido da castanha; e assim, os pangaios rumam a Moçambique com o Nordeste, e voltam ao cambar da monção, com vento também à popa; fazendo a travessia em cerca de trinta dias.

O nahota, de turbante branco e cabaia com alamares dourados, sentado no chão da sua câmara minúscula, com janelas em quadrado deitando para o mar como as das popas das naus antigas, mostra-nos a derrota que fizera sobre um mapa de pequena escala, explicando numa língua de difícil entendimento – inglês misturado com o seu idioma – os cálculos que fizera pelo sol, empregando muito as palavras sextante e cronómetro. Temporais, ventos frescos, vagas altas, pano roto e às vezes o pangaio à mercê do tempo, com muita crença em louvor de Maomé!  (continua)

t