Revista do CLUBE DE OFICIAIS DA MARINHA MERCANTE

Bordo Livre - Nº 69 Julho/Agosto 2005

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TRANSPORTE MARÍTIMO – PROBLEMAS E TENDÊNCIAS

SERVIÇOS DE TRANSPORTE MARÍTIMO – UMA ACTIVIDADE COMPLEXA

A ideia de que o transporte marítimo é a actividade que se limita à movimentação de cargas entre diferentes portos de diferentes regiões do mundo, utilizando navios de diferentes tipos e dimensões, continua a ser o conceito prevalecente na opinião pública. No entanto, nos nossos dias, esta visão corresponde cada vez menos à realidade. Efectivamente, o transporte marítimo é apenas e cada vez mais, um dos elos de cadeias multimodais de transporte porta-a-porta, sendo por isso comum falar-se frequentemente de soluções, em vez de modos de transporte. O transporte marítimo passou assim a ser, fundamentalmente, um serviço que permite, integrado com outros, optimizar o transporte global e o funcionamento de complexas cadeias logísticas.

Para se adaptar eficazmente às novas exigências, o transporte marítimo tem vindo a sofrer uma grande evolução e inovação tecnológica, em especial no que respeita ao “hardware” (navios) e ao “software” (sistemas de informação, comunicação e intercâmbio inteligente de dados), bem como a dispor de recursos humanos altamente qualificados nas áreas chave específicas desta actividade.

A procura de serviços de transporte marítimo é uma procura derivada. Efectivamente, a necessidade de transportar por via marítima deriva do comércio de mercadorias entre diferentes países e, por isso, existem tipos de serviços tão diversificados. Para dar satisfação a essas diferentes necessidades, as empresas organizam dos serviços de acordo com diferentes factores: tipos de carga, volumes de carga a transportar, forma de distribuição da carga por parcelas a transportar, local de recepção e local de entrega, tempo utilizado no trânsito entre os dois locais, etc.

Assim, a oferta organiza-se com base em dois grandes segmentos: os serviços de linha e o transporte de cargas a granel.

O primeiro, é do tipo generalista, isto é, visa enquadrar uma grande diversidade de procura de serviços de transporte, sendo a regularidade e padronização do perfil de serviço (itinerários, frequência, dias de saída, etc.) as suas principais características. São utilizados navios porta-contentores, navios roll-on roll-off ou navios multipurpose.

O segundo, tem por base o princípio “uma carga, um navio” e pretende corresponder ao transporte de grandes volumes de carga utilizando navios tanque ou graneleiros podendo estes ser especializados em determinados tipos de carga (ex. navios auto descarregadores para o transporte de cimento a granel).

O TRANSPORTE MARÍTIMO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

O transporte marítimo é uma actividade eminentemente internacional que opera em mercado aberto e concorrencial pelo que, em princípio, qualquer operador pode, independentemente da sua nacionalidade ou localização da empresa, prestar serviços de transporte marítimo no mercado internacional. Assim, é muito comum a prestação desses serviços entre dois pontos de origem/destino sem que algum deles seja o país de registo da empresa ou do navio (cross-trading). Este mercado é dominado por grandes empresas transnacionais, que desenvolvem estratégias globais, tirando partido da queda das diferentes barreiras de acesso às cargas que se tem verificado a nível mundial.

Um bom exemplo da globalização é dado pela in­dústria automóvel, em que os motores podem ser produzidos na Holanda, o design na Itália, os componentes electrónicos na Índia e assestados no Brasil e o produto final, o automóvel, montado nos Estados Unidos; sendo pois um produto global comercializado numa centena e meia de países.

Vai ter de ser distribuído por todo o mundo.

Ora este tipo de organização da produção e de distribuição do produto, a que chamamos globalização, não seriam de todo possíveis se pelo menos dois tipos de actividades económicas não tivessem conseguido responder pronta e adequadamente: — as telecomunicações e o transporte marítimo.

De todos os negócios do transporte marítimo o segmento de linhas de contentores é o que melhor traduz os efeitos da globalização do comércio mundial, um deles é a concentração num número cada vez mais reduzido de empresas, quer operadores de navios, quer operadores de terminais de contentores.

OS OPERADORES DE LINHAS DE CONTENTORES

Os 10 maiores operadores de linhas gerem uma frota de 1 489 navios que corresponde a 52% do total mundial da capacidade disponível em TEU’s. A Maersk-Sealand, o maior operador mundial, ocupa 12% desse total, logo seguida pela MSC (Mediterranean Shipping Company) com 7%, isto é, a uma distância razoável.

Assim, os operadores de serviços de linha criaram uma complexa teia de alianças e de parcerias envolvendo agentes de navegação, transitários e operadores rodoviários, ferroviários e logísticos que, em alguns casos, têm evoluído para modelos de concentração através de aquisições e fusões a exemplo do que passou no transporte aéreo e nas telecomunicações. No entanto, ao contrário daqueles dois exemplos, o processo de concentração no segmento de serviços de linha tem sido lento, muito embora, no entender de alguns especialistas, a conjuntura depressiva destes dois últimos anos e a recuperação prevista para 2005/ /2006 possam contribuir para uma aceleração desse processo.