Bordo Livre - Nº 43/44 - Julho/Agosto de 2002

Iniciamos aqui uma série de artigos sobre a história dos grandes Armadores nacionais,que poderão ser complementados, para  os coleccionadores interessados, com as séries de postais das respectivas frotas, disponíveis na sede do Clube ( Colec. L. M. Correia )

COMPANHIA COLONIAL DE NAVEGAÇÃO

Em finais de 1918 ao sair da Primeira Guerra Mundial, a frota de comércio portuguesa encontrava-se extremamente depauperada e envelhecida e em 1920 era constituída, apenas, por onze unidades obsoletas cuja arqueação bruta global não ía além das 44 041 toneladas Moorsom.

Por outrto lado o movimento comercial entre as colónias portuguesas e o continente encontrava-se em franco desenvolvimento e assim as empresas ultramarinas sentiam grandes dificuldades para conseguir escoar os seus produtos.

Daí resultou que algumas daquelas empresas resolvessem adquirir navios que lhes assegurassem aquele mesmo escoamento.

Foi assim que a Sociedade Agrícola da Ganda, sediada em Angola adquiriu em 1920 o cargueiro britânico "General Allenby" que rebaptizou "Ganda"  e a firma Ed. Guedes, Lda, com sede na Guiné, comprou o navio de passageiros (a) "La Plata" que fez rebaptizar "Guiné".

As duas empresas atrás referidas conjuntamente com uma terceira: a Companhia do Amboim, impulsionadas pelo dinamismo e força de vontade empreendedora de Bernardino Alves Corrêa, decidiram associar-se e fundaram em 3 de Julho de 1922 uma companhia de transportes marítimos à qual foi dado o nome de Companhia Colonial de Navegação, que havia de ficar conhecida nos meios marítimos pelas iniciais C.C.N., cujo primeiro navio foi exactamente o cargueiro "Ganda", comprado, oficialmente, pela nova empresa armadora à Sociedade Agrícola da Ganda em 22 de  Julho de 1922, data sobre a qual se completaram recentemente oitenta anos.

A segunda unidade seria o paquete "Guiné", ex-"La  Plata", adquirido também em 1922. Em 1924 foi comprado o cargueiro "Porto Alexandre" dos Transportes Marítimos do Estado, como consequência da liquidação daquele organismo, tendo sido rebaptizado "Lobito", nome da cidade angolana onde a CCN foi inicialmente sediada.

Em 1925 integraram a frota mais três vapores da mesma proveniência: um navio de passageiros que recebeu o nome de "Amboim" e dois cargueiros que passaram a chamar-se "Benguela" e "Bissau".

Deste modo em finais de 1925 a CCN possuía já dois paquetes e quatro navios de carga cujos portes brutos totalizavam 28 322 toneladas.

Em 1926 mais duas aquisições: o cargueiro "Cassequel" e o navio de passageiros "Loanda" e em 1928 o "João Belo", o primeiro paquete digno desse nome.

Em 1929 e 1930 mais sete navios foram comprados: os cargueiros "Malange", "Sena", "Pungue" e "Ganda" (2º) e os paquetes gémeos "Mouzinho" e "Colonial" e o "Guiné" (2º), ex-paquete "San Miguel" da Empresa Insulana de Navegação, salvo de ser afundado por um submarino alemão, em 1918, graças à bravura e sacrifício de Carvalho Araújo e de mais cinco elementos da guarnição do patrulha de alto mar (b) "Augusto de Castilho " o qual acabou por ser afundado após um combate desigual que, incrivelmente, se prolongou por mais de duas horas, permitindo que o "San Miguel" chegasse são e salvo a Ponta Delgada. Em 1940 mais um importante reforço: o belo paquete "Serpa Pinto", que começara por ser o "Ebro" da mala real inglesa e que se chamava "Princesa Olga" quando foi adquirido pela Colonial.

 Seguiram-se-lhe os cargueiros " Luango" "Micondo", "Lugela", "Huambo", "Bailundo" e "Buzi" igualmente adquiridos em plena guerra, todos em segunda mão e todos propulsionados por máquinas alternativas de vapor, excepção feita ao "Lugela", ex-alemão "Dortmund" que foi o primeiro navio mercante português accionado por turbinas a vapor.

Apesar de Portugal ser neutro durante o segundo conflito mundial e os seus navios se encontrarem bem identificados, com grandes bandeiras nacionais pintadas nos costados e a palavra Portugal, bem visível pintada a branco nos cascos negros, isso não impediu que, em 1941, O "Cassequel" e o segundo "Ganda" fossem torpedeados e afundados por submarinos alemães.

Terminada a segunda guerra mundial, o despacho nº 1009 de 10 de Agosto de 1945, promulgado pelo Ministro da Marinha Capitão-de-mar-e-guerra Américo de Deus Rodrigues Thomaz, visando a reorganização e a renovação da marinha de comércio portuguesa, consagrou à Companhia Colonial um plano de novas construções constituído por três navios de passageiros, catorze navios de carga e dois navios–tanques para transporte de combustíveis líquidos.

Este plano inicial viria a sofrer algumas alterações que fizeram com que o número de paquetes passasse de três para cinco, o de cargueiros passasse de catorze para dez e que os dois navios-tanques, mercê do despacho nº 150, fossem atribuídos a uma nova empresa que explorasse todos os navios tanques nacionais a qual veio a ser a Sociedade Portuguesa de Navios Tanques, S. A. – Soponata.

A primeira daquelas duas unidades, o "Sameiro", foi lançada à água, no Arsenal do Alfeite, no dia 28 de Agosto de 1946, ainda com a bandeira da C.C.N., mas quando ficou concluída, em 1948, integrou a frota da Soponata, recém–constituída.

Similarmente, o segundo navio-tanque, o "São Mamede", foi aumentar a frota daquela nova empresa armadora, em 1951.

Paquete "Vera Cruz" à saída de S. Vicente, Cabo Verde, em Abril de 1952

Desse modo, a colonial veio a possuir, como consequência do despacho nº 1005 os paquetes "Pátria", "Império", "Vera Cruz" e "Santa Maria" propulsionados por turbinas a vapor e o “Uíge" o único paquete accionado por motor diesel, e os cargueiros "Benguela" (c), "Ganda", "Amboim", "Luanda" e “Sena" todos propulsionados também por motores diesel e os gémeos "Chaimite" e "Nampula" accionados por duas maquinas alternativas de vapor, sendo estes três últimos mais pequenos e destinados a cabotagem na costa da Província Ultramarina de Moçambique. Em 1947 a C.C.N. adquiriu em segunda mão, aos Estados Unidos, três pequenos cargueiros a vapor, construídos dentro dos programas do tempo da guerra, que rebaptizou "Lunda", "Pebane" e "Quionga" e que podem ser considerados como fazendo parte do plano de renovação previsto pelo despacho nº 100. Porém, em 1956 aqueles três navios gémeos foram vendidos a um armador cubano.

Em 1959, 1968 e 1971 foram construídos nos estaleiros navais de Viana do Castelo, por encomenda da colonial, os grandes cargueiros a motor "Lobito", "Porto" e "Malange" respectivamente.

Em 1961 entrou ao serviço o maior e mais luxuoso de todos os paquetes portugueses que fora encomendado pela C.C.N. ao estaleiro belga J. Cockerill (d) e ao qual foi dado o nome de "Infante Dom Henrique". Em 1969 foi adquirido, ao estaleiro polaco que 0 construíra e pusera a venda, (devido ao facto de 0 armador grego que 0 encomendara não ter podido satisfazer os compromissos financeiros contratuais), um grande cargueiro a motor que foi rebaptizado "Bailundo". Em 1972 foi comprado, acabado de construir, um grande cargueiro a motor, também de construção polaca, ao qual foi dado o nome do dinâmico fundador da Companhia Colonial de Navegação:"Bernardino Correa.

Ainda em 1972 e 1973 foram adquiridos, em segunda mão, dois pequenos cargueiros a motor, gémeos, construídos na Alemanha, que fizeram ressuscitar os nomes de dois famosos vapores, já abatidos: "Pungue" e "Lugela". Foram os dois últimos navios a integrar a frota da Companhia Colonial de Navegação, a qual, em Fevereiro de 1974 foi fundida com a Empresa Insulana de Navegação, tendo resultado dessa fusão uma nova empresa armadora chamada Companhia Portuguesa de Transportes
Marítimos, abreviadamente: C.T.M.

Este é em traços muito largos, um extremamente sucinto apontamento sobre a C.C.N. feito através da enumeração dos quarenta e sete navios que integraram a sua frota ao longo dos seus cinquenta e dois anos de vida, de 1922 a 1974.

José Ferreira dos Santos

Capitão da Marinha Mercante

Notas do Autor

 (a) Embora vários autores usem a expressão "navio-misto" ela não é contemplada na classificação portuguesa, que apenas chama navio de passageiros, ou paquete, àquele que tem alojamentos para transportar mais de doze passageiros e navio de carga, ou cargueiro, ao que além de transportar carga tem alojamentos que permitem transportar até doze passageiros. Se se classificasse como navio-misto aquele que além de poder transportar um número substancial de passageiros também transportasse carga então a Marinha de Comércio Portuguesa nunca teria tido um único navio de passageiros, pois até os navios da classe "Vera Cruz" além de possuírem alojamentos para 1158 passageiros tinham três porões com capacidade de carga de 5495 m3, bem superior à de muitos cargueiros, e portanto, por aquela ordem de ideias, seriam chamdos, eles também, navios-mistos.t

(b) O pequeno "Augusto de Castilho", que não era mais do que o arrastão "Elite" da Parceria Geral de Pescarias que tinha sido requisitado, rebaptizado e artilhado, surge em várias publicações erroneamnete classificado como caça-minas, que nunca foi. Duas honrosas excepções: o Cte Jaine do Inso em a Marinharia Portuguesa na Grande Guerra e o Cte Saturnino Monteiro em Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa têm a preocupação de repôr a verdade, classificando-o, com rigor, como patrulha.t

(c) O "Benguela", que foi adquirido em 1946, na Suécia, acabado de construir, foi o primeiro do despacho nº 100 a integrar a frota da C.C.N. e foi também o primeiro propulsionado por motor Diesel.t

(d) No estaleiro J. Cockerill já tinham sido construídos para a C.C.N. os dois paquetes gémeos "Vera Cruz" e "Santa Maria", o paquete "Uíge" e os cargueiros "Luanda" e "Sena".t

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