Em finais de 1918 ao sair da Primeira Guerra Mundial,
a frota de comércio portuguesa encontrava-se extremamente depauperada
e envelhecida e em 1920 era constituída, apenas, por onze unidades
obsoletas cuja arqueação bruta global não ía além das 44 041 toneladas
Moorsom.
Por outrto lado o movimento comercial entre as colónias portuguesas
e o continente encontrava-se em franco desenvolvimento e assim as
empresas ultramarinas sentiam grandes dificuldades para conseguir
escoar os seus produtos.
Daí resultou que algumas daquelas empresas
resolvessem adquirir navios que lhes assegurassem aquele mesmo escoamento.
Foi assim que a Sociedade Agrícola da Ganda,
sediada em Angola adquiriu em 1920 o cargueiro britânico "General
Allenby" que rebaptizou "Ganda" e a firma
Ed. Guedes, Lda, com sede na Guiné, comprou o navio de passageiros
(a) "La Plata" que fez rebaptizar "Guiné".
As duas empresas atrás
referidas conjuntamente com uma terceira: a Companhia do Amboim, impulsionadas
pelo dinamismo e força de vontade empreendedora de Bernardino Alves Corrêa,
decidiram associar-se e fundaram em 3 de Julho de 1922 uma companhia de transportes
marítimos à qual foi dado o nome de Companhia Colonial de Navegação,
que havia de ficar conhecida nos meios marítimos pelas iniciais C.C.N.,
cujo primeiro navio foi exactamente o cargueiro "Ganda", comprado,
oficialmente, pela nova empresa armadora à Sociedade Agrícola
da Ganda em 22 de Julho de 1922, data sobre a qual se completaram recentemente
oitenta anos.
A segunda
unidade seria o paquete "Guiné", ex-"La Plata",
adquirido também em 1922. Em 1924 foi comprado o cargueiro "Porto Alexandre"
dos Transportes Marítimos do Estado, como consequência da liquidação
daquele organismo, tendo sido rebaptizado "Lobito", nome
da cidade angolana onde a CCN foi inicialmente sediada.
Em 1925 integraram
a frota mais três vapores da mesma proveniência: um navio de passageiros
que recebeu o nome de "Amboim" e dois cargueiros que passaram
a chamar-se "Benguela" e "Bissau".
Deste modo em finais
de 1925 a CCN possuía já dois paquetes e quatro navios de carga
cujos portes brutos totalizavam 28 322 toneladas.
Em 1926 mais duas aquisições: o cargueiro "Cassequel"
e o navio de passageiros "Loanda" e em 1928 o "João
Belo", o primeiro paquete digno desse nome.
Em 1929 e 1930 mais
sete navios foram comprados: os cargueiros "Malange",
"Sena", "Pungue" e "Ganda" (2º)
e os paquetes gémeos "Mouzinho" e "Colonial"
e o "Guiné" (2º), ex-paquete "San Miguel"
da Empresa Insulana de Navegação, salvo de ser afundado por
um submarino alemão, em 1918, graças à bravura
e sacrifício de Carvalho Araújo e de mais cinco elementos da guarnição
do patrulha de alto mar (b) "Augusto de Castilho " o qual acabou por
ser afundado após um combate desigual que, incrivelmente, se prolongou por mais
de duas horas, permitindo que o "San Miguel" chegasse são e salvo a Ponta
Delgada. Em 1940 mais um importante reforço: o belo paquete "Serpa Pinto",
que começara por ser o "Ebro" da mala real inglesa e que se chamava
"Princesa Olga" quando foi adquirido pela Colonial.
Seguiram-se-lhe
os cargueiros " Luango" "Micondo", "Lugela",
"Huambo", "Bailundo" e "Buzi" igualmente
adquiridos em plena guerra, todos em segunda mão e todos propulsionados por máquinas
alternativas de vapor, excepção feita ao "Lugela", ex-alemão
"Dortmund" que foi o primeiro navio mercante português accionado por
turbinas a vapor.
Apesar de Portugal ser neutro durante o segundo conflito mundial e os seus
navios se encontrarem bem identificados, com grandes bandeiras nacionais
pintadas nos costados e a palavra Portugal, bem visível pintada a branco
nos cascos negros, isso não impediu que, em 1941, O "Cassequel" e o
segundo "Ganda" fossem torpedeados e afundados por submarinos alemães.
Terminada a segunda guerra mundial, o despacho nº 1009 de 10 de Agosto de
1945, promulgado pelo Ministro da Marinha Capitão-de-mar-e-guerra Américo de
Deus Rodrigues Thomaz, visando a reorganização e a renovação da marinha de comércio
portuguesa, consagrou à Companhia Colonial um plano de novas construções constituído por três navios de passageiros,
catorze navios de carga e dois navios–tanques para transporte de
combustíveis líquidos.
Este
plano inicial viria a sofrer algumas alterações que fizeram com que o número de paquetes passasse de três para cinco, o de cargueiros passasse de
catorze para dez e que os dois navios-tanques, mercê do despacho nº 150,
fossem atribuídos a uma nova empresa que explorasse todos os navios
tanques nacionais a qual veio a ser a Sociedade Portuguesa de
Navios Tanques, S. A. – Soponata.
A primeira daquelas duas unidades, o
"Sameiro", foi lançada à água,
no Arsenal do Alfeite, no dia 28 de Agosto de 1946, ainda com a bandeira da C.C.N.,
mas quando ficou concluída, em 1948, integrou a frota da Soponata, recém–constituída.
Similarmente, o segundo navio-tanque, o "São Mamede", foi aumentar a
frota daquela nova empresa armadora, em 1951.

Paquete
"Vera Cruz" à saída de
S. Vicente, Cabo Verde, em Abril
de 1952
|
Desse modo, a colonial veio a possuir, como consequência do despacho nº 1005 os
paquetes "Pátria", "Império", "Vera Cruz" e
"Santa Maria" propulsionados
por turbinas a vapor e o “Uíge" o único paquete accionado por motor diesel,
e os cargueiros "Benguela" (c), "Ganda",
"Amboim", "Luanda" e “Sena" todos propulsionados também por motores diesel e os gémeos "Chaimite" e
"Nampula" accionados por duas maquinas alternativas de vapor, sendo
estes três últimos mais pequenos e destinados a cabotagem na costa da
Província Ultramarina de Moçambique. Em 1947 a C.C.N. adquiriu em segunda mão, aos Estados Unidos, três pequenos cargueiros
a vapor, construídos dentro dos programas do tempo da guerra, que rebaptizou
"Lunda", "Pebane" e "Quionga" e que podem ser
considerados como fazendo parte do plano de renovação previsto pelo despacho nº
100. Porém, em 1956 aqueles três navios gémeos foram vendidos a um armador
cubano.
Em
1959, 1968 e 1971 foram construídos nos estaleiros navais de Viana do Castelo, por encomenda da colonial, os grandes cargueiros a motor
"Lobito", "Porto" e "Malange"
respectivamente.
Em 1961 entrou ao serviço o maior e mais luxuoso de todos os paquetes
portugueses que fora encomendado pela C.C.N. ao estaleiro belga J. Cockerill
(d)
e ao qual foi dado o nome de "Infante Dom Henrique".
Em 1969 foi adquirido, ao estaleiro polaco que 0 construíra e pusera a venda,
(devido ao facto de 0 armador grego que 0 encomendara não ter podido
satisfazer os compromissos financeiros contratuais), um grande cargueiro a
motor que foi rebaptizado "Bailundo". Em 1972 foi comprado, acabado de construir, um grande cargueiro a motor,
também
de construção polaca, ao qual foi dado o nome do dinâmico fundador
da Companhia Colonial de Navegação:"Bernardino Correa.
Ainda em 1972 e 1973 foram adquiridos,
em segunda mão, dois pequenos cargueiros a motor, gémeos, construídos
na Alemanha, que fizeram ressuscitar os nomes de dois famosos vapores, já abatidos: "Pungue" e
"Lugela".
Foram os dois últimos navios a integrar a frota da Companhia Colonial de Navegação, a qual, em Fevereiro de 1974 foi fundida com a
Empresa Insulana de Navegação, tendo resultado dessa fusão uma nova
empresa armadora chamada Companhia Portuguesa de Transportes
Marítimos,
abreviadamente: C.T.M.
Este
é em traços muito largos, um extremamente sucinto apontamento sobre a C.C.N. feito através da enumeração dos quarenta e sete navios
que
integraram a sua frota ao longo dos seus cinquenta e dois anos de vida, de 1922
a 1974.
José Ferreira dos Santos
Capitão
da Marinha Mercante
|
Notas do Autor
(a) Embora vários autores usem a expressão
"navio-misto" ela não é contemplada na classificação
portuguesa, que apenas chama navio de passageiros, ou paquete,
àquele que tem alojamentos para transportar mais de doze passageiros
e navio de carga, ou cargueiro, ao que além de transportar carga
tem alojamentos que permitem transportar até doze passageiros.
Se se classificasse como navio-misto aquele que além de poder
transportar um número substancial de passageiros também transportasse
carga então a Marinha de Comércio Portuguesa nunca teria tido
um único navio de passageiros, pois até os navios da classe
"Vera Cruz" além de possuírem alojamentos para 1158
passageiros tinham três porões com capacidade de carga de 5495
m3, bem superior à de muitos cargueiros, e portanto, por aquela
ordem de ideias, seriam chamdos, eles também, navios-mistos.t
(b) O pequeno "Augusto de Castilho",
que não era mais do que o arrastão "Elite" da Parceria
Geral de Pescarias que tinha sido requisitado, rebaptizado e
artilhado, surge em várias publicações erroneamnete classificado
como caça-minas, que nunca foi. Duas honrosas excepções: o Cte
Jaine do Inso em a Marinharia Portuguesa na Grande Guerra e
o Cte Saturnino Monteiro em Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
têm a preocupação de repôr a verdade, classificando-o, com rigor,
como patrulha.t
(c)
O "Benguela", que foi adquirido em 1946, na Suécia,
acabado de construir, foi o primeiro do despacho nº 100 a integrar
a frota da C.C.N. e foi também o primeiro propulsionado por
motor Diesel.t
(d)
No estaleiro J. Cockerill já tinham sido construídos para a
C.C.N. os dois paquetes gémeos "Vera Cruz" e "Santa
Maria", o paquete "Uíge" e os cargueiros "Luanda"
e "Sena".t
|
|
|